A Ria Formosa é a razão pela qual muita gente acaba a remar em Faro em vez de surfar. É uma lagoa com cerca de sessenta quilómetros, protegida por um cordão de ilhas de areia, e é quase toda de águas planas. Sem ondas, sem rebentação, quente no verão e cheia de aves. Por isso, para uma prancha de stand up paddle, é quase perfeita.
Mas também tem marés, e é essa a parte que os visitantes subestimam. Se acertares na maré, é das remadas mais fáceis e bonitas de Portugal. Mas, se errares, acabas a arrastar a prancha pelo lodo ou a lutar contra uma corrente mais forte do que a tua remada. Eis, então, como acertar.
Onde estás realmente a remar
A Ria Formosa não é uma baía. É um sistema de canais, sapal, bancos de areia e pequenas ilhas, protegido como parque natural e ligado ao Atlântico por um punhado de barras estreitas. Assim, duas vezes por dia, o mar entra por essas barras e depois volta a sair. Como as aberturas são pequenas e a área por trás delas é grande, a água corre depressa nos canais e quase não mexe nos baixios.
A amplitude de maré aqui é moderada para os padrões do Atlântico: cerca de um metro e meio em maré morta e até uns três metros numa maré viva grande. Parece pouco, mas só até veres como a ria é pouco funda. Por exemplo, na maré baixa de uma maré viva, há zonas enormes que simplesmente ficam sem água.
A regra da maré, num parágrafo
Rema na janela entre cerca de duas horas antes da maré alta e duas horas depois. É quando há água por todo o lado, a corrente está mais fraca perto da estofa e não corres o risco de encalhar num banco que não viste. Em seguida, seja qual for o sítio de onde partas, vai contra a corrente e volta a favor dela. Se fores a favor da corrente porque está a saber bem, descobres o problema dois quilómetros depois, quando dás a volta: a corrente continua ótima, só que agora vai no sentido errado.
Vê a tabela de marés de Faro antes de ires, e não a de Lisboa ou a do Algarve em geral. Na Fuseta e em Tavira, a maré alta é um pouco mais tarde do que em Faro.
Onde entrar na água
Praia de Faro, do lado da ria
É a opção mais perto do Aeroporto de Faro, a uns dez minutos de carro, e a que a maioria dos nossos clientes escolhe. A estreita faixa de areia tem a praia do lado do mar e a ria do outro. Entra na água do lado da ria, perto da ponte, e tens logo água calma e pouco funda. Bom para uma primeira remada. Estacionar é mesmo difícil de julho ao início de setembro, por isso vai cedo.
Fuseta
Se só fores remar a um sítio, que seja este. A Fuseta fica a uns trinta minutos a leste de Faro, e o braço da ria em frente à vila é abrigado, pouco fundo e quente, com uma praia num banco de areia onde podes desembarcar. É a água mais simpática de todo o sistema, e a vila continua a ser uma terra de pescadores e não uma estância turística.

Cabanas de Tavira
A uns quarenta e cinco minutos a leste. O canal entre a aldeia e a ilha de Cabanas é estreito, calmo e muito pouco fundo, o que faz deste o ponto de partida menos intimidante da lista. Atravessa até à ilha, vai a pé até à praia do lado do mar e, por fim, volta a remar. É um bom passeio para fazer com crianças.
Olhão
A quinze minutos de Faro, com mais destinos à escolha, porque a Armona e a Culatra ficam ali mesmo em frente. É também a zona com mais barcos de trabalho e tem canais a sério, com corrente forte. Vale a pena quando já estiveres à vontade, não no primeiro dia.
Santa Luzia e Praia do Barril
Mais tranquilo do que todos os sítios acima, a cerca de trinta e cinco minutos a leste de Faro. Santa Luzia é a aldeia do polvo, e a água em frente é calma e sem pressas. É aqui que vens se quiseres não ver quase ninguém.
O vento conta mais do que pensas
De manhã, geralmente, a ria está um espelho. No verão, a partir do meio-dia, mais ou menos, levanta-se um vento de norte a noroeste chamado nortada, e numa zona aberta da ria vai empurrar-te para todo o lado numa prancha que não tem quilha. Se entrares na água às oito ou nove da manhã, tens água lisa e melhor luz para as aves. Porém, se saíres às três da tarde em julho, a volta é sempre a remar contra o vento.
E não é pouca coisa. Aliás, depois das marés, é a segunda razão mais comum para uma remada na Ria Formosa correr mal.
O que vais ver
Flamingos, com mais certeza do outono à primavera, nas salinas pouco fundas perto de Faro e de Olhão. Colhereiros, alfaiates e garças-brancas-pequenas durante todo o ano. Cegonhas-brancas a fazer ninho em chaminés e postes ao longo da margem. Milhares de caranguejos-violinistas no lodo na maré baixa, com os machos a acenar a pinça gigante. A ria é também um dos habitats de cavalos-marinhos mais importantes da Europa, mas vais precisar de água limpa e de ir à deriva, devagar, para ver algum.

Há duas coisas a evitar. Os viveiros de ostras e amêijoas são explorações de marisco em atividade, normalmente marcados com estacas ou mesas, e remar por cima deles ou pisá-los causa estragos reais e irrita, com razão, quem lá trabalha. E as dunas das ilhas são zona de nidificação de andorinhas-do-mar e borrelhos no fim da primavera e no verão, por isso desembarca na praia, não nas dunas.
O que levar
Leash, sempre, mesmo em água calma. Colete de flutuação, sobretudo se fores atravessar um canal. O telemóvel num saco estanque. Água, porque lá fora não há sombra e o reflexo da ria é mais forte do que parece. Uma tabela de marés, vista antes de entrares na água e não de memória do dia anterior. Por fim, diz a alguém para onde vais, o que parece exagero até pensares que, na maré baixa, grande parte da ria não tem barcos nenhuns.
Alugar uma prancha
Estamos a 1,5 km do Aeroporto de Faro, por isso podes levantar a prancha à chegada e devolvê-la à partida. Pranchas insufláveis, remos à tua medida, leash e colete de flutuação incluídos, e cintas de tejadilho para alugar se o teu carro alugado não tiver barras.
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